Marcos tem 25 anos e nasceu sem as duas pernas. Ele vende brigadeiro num sinaleiro, são três quilômetros de ida, três de volta, todo dia.
O braço é o motor de tudo. É com ele que Marcos chega no sinaleiro, desce entre os carros quando o sinal fecha, volta pra calçada quando abre. Foi assim que ele e a mãe pagaram as contas por anos.
No começo do ano o ombro começou a incomodar. O doutor olhou e foi direto: essa junta tá se desgastando; do jeito que Marcos força, aguenta no máximo três meses. Depois trava, e só volta com cirurgia.
Já se passaram 40 dias.
Se o ombro parar, para tudo. Não é só a venda. É a receita da casa, a comida na mesa, o cuidado da mãe.
Dona Marlene tem 63 anos. Levanta quatro da manhã pra enrolar mais de cem brigadeiros antes do sol nascer, com as mãos duras da idade. Ainda acompanha o Marcos até a subida do viaduto, porque aquele pedaço ele não passa sozinho. Empurra, se despede, volta a pé.
A saída tem nome: cadeira de rodas motorizada. Com ela, Marcos chega no sinaleiro sem torrar o ombro, sobe o viaduto sem a mãe, e alcança pontos onde a venda rende. Custa mais do que os dois juntam num ano de brigadeiro.
Faz 25 anos que quem leva o Marcos é a Dona Marlene. Agora tem uma subida que ela não consegue sozinha.
Tudo pode começar a mudar, aqui em baixo: